Trump e a Luta pela 'Originalidade Infinita'
Como a Inteligência Artificial Transforma a Comunicação Política e a Dinâmica do Debate Público

A Nova Fronteira da Comunicação Política
Uma das últimas publicações do presidente americano, Donald Trump, em sua rede social transcende a mera estética kitsch. Produzida por inteligência artificial, a imagem apresentava o republicano vestido de Jesus Cristo, emanando uma luz brilhante das mãos em um gesto de cura direcionado a um homem. Ao fundo, símbolos como a águia americana, a estátua da Liberdade, caças e militares estão presentes, evocando uma mistura de patriotismo e religiosidade.
A Engenharia Política nas Mãos da IA
Minimizada pelo próprio presidente como um equívoco, a peça é, na verdade, uma manobra de engenharia política de alta precisão. Na era da inteligência artificial generativa, o bizarro não é um erro de cálculo, mas um instrumento para romper as defesas cognitivas do eleitor e "controlar" a opinião pública por meio da atenção atrativa (mobilização) e aversiva (críticas).
A Eficácia da Trollagem Política
Para os seguidores e eleitores de Trump, a trollagem com o papa Leão 14 mobiliza, engaja, vira graça e tema de discussão. Com sinal invertido, a mensagem do presidente captura a atenção dos adversários e da imprensa por meio da indignação, repulsa e choque.
O Desafio da Atenção na Era Digital
Por que essa estratégia tende a ser eficiente? Em 1971, Herbert Simon alertou que a mente humana opera como um sistema de processamento serial de informações, uma característica que nos obriga a prestar atenção em uma coisa por vez. Nesse modelo, a abundância informacional implica pobreza de atenção. Resumidamente, quando a oferta de estímulos é muito alta, como temos hoje no contexto digital, ser visto pela audiência torna-se tarefa mais árdua.
A Luta pela 'Originalidade Infinita'
Estamos em 2026, quatro anos após o lançamento da IA. As facilidades de produção de conteúdo sintético amplificam a saturação do ambiente informacional. Tudo é ainda mais veloz, abundante e interminável, tornando a atenção do público ainda mais escassa. Essa dinâmica intensifica o que Michael Goldhaber chamou, em 1997, de uma corrida pela "originalidade infinita". Para ser notado, não basta publicar; é preciso surpreender, chocar cotidianamente, porque, como definiriam outros pesquisadores, o que era surpreendente ontem torna-se muito chato hoje.
A Deterioração da Esfera Pública
Do ponto de vista do debate público, a lógica da "originalidade infinita" operada pelas facilidades da IA é perversa. Se o custo para gerar impacto é hoje nulo, enquanto a recompensa em atenção com conteúdos que chocam é quase certa, temos uma nova escalada na deterioração da esfera pública.
A Hipermobilização Permanente
Na estratégia política da hipermobilização permanente via IA, da qual Trump é a expressão mais evidente, a agenda pública é sequestrada pelo bizarro. É uma luta de soma zero. Quando o líder americano mobiliza o país em torno de uma imagem fabricada que choca, ele força os eleitores e a imprensa a abandonarem a discussão sobre outros temas. O debate público deixa de ser sobre a política externa de Trump para se concentrar na estranheza da mensagem orientada para circular no digital já tão saturado e interromper outras agendas e fluxos de informação.
Reflexões Finais
A incessante luta por atenção na era da inteligência artificial não é apenas uma questão de comunicação política; é uma reflexão sobre como a sociedade estará disposta a reagir a esses novos paradigmas. Onde encontraremos o equilíbrio entre a criatividade necessária para se destacar e a responsabilidade na construção de um debate público saudável?