O arquivo de Cyro Etchegoyen
Desvendando os segredos obscuros da repressão na ditadura brasileira

Uma nova luz sobre os anos de chumbo
No dia 25 de abril de 2026, uma série de reportagens investigativas realizada por três repórteres do ICL Notícias - Juliana Dal Piva, Chico Otavio e Igor Mello - revelou uma conexão alarmante entre o aparelho repressivo da ditadura militar brasileira e os serviços de inteligência britânicos. A série, intitulada "Bandidos de Farda", trouxe à tona detalhes intricados de um dos capítulos mais sombrios da história do Brasil: os "anos de chumbo".
O legado de Cyro Etchegoyen
Os jornalistas trabalharam a partir do arquivo deixado pelo coronel Cyro Etchegoyen, que atuou como chefe do Centro de Informação do Exército (CIE) entre 1971 e 1974. Este acervo é composto por 23 pastas que contêm cerca de 3.000 folhas de documentos, revelando partes da trajetória de Etchegoyen e sua conexão com um aparelho clandestino de repressão localizado na Casa da Morte, em Petrópolis. Essa instalação era uma unidade onde militantes eram mantidos em condições desumanas e torturados, resultando em um número estimado de 22 assassinatos, incluindo relatos de sobreviventes como Inês Etienne Romeu, que trouxe à luz horrores desse lugar.
A colaboração internacional e a tortura como prática
Embora haja conhecimento de colaborações entre serviços de inteligência de países como os Estados Unidos e a França, ainda faltavam informações concretas sobre a contribuição dos britânicos. O documento que os repórteres encontraram expôs a colaboração do BIS (Serviço de Informação Britânico) e do MI-5 (Serviço de Segurança Interna) em técnicas de interrogatório, destacando que, mesmo declarando que a tortura é contraproducente, o manual continha orientações que permitiam a sua prática de várias formas.
Estágios na Grã-Bretanha
Documentos indicam que pelo menos quatro militares brasileiros estiveram em importantes estágios de formação na Grã-Bretanha, entre eles os tenentes-coronéis Cyro Etchegoyen e Milton Masselli Duarte. Esses cursos incluíam visitas a instituições como o BIS e o MI-5, onde um relatório intitulado "Estágio de Informações na Inglaterra - Relatório" foi elaborado. Ao longo dos estágios, os militares aprenderam, entre outras práticas, que "a localização do centro deve ser um segredo de Estado" e que toda a comunicação com prisioneiros deveria ser minimizada ao extremo.
Diretrizes aterradoras para o interrogatório
Os documentos revelaram diretrizes cruéis para o manejo de prisioneiros. Algumas das orientações incluíam:
- Os prisioneiros devem ser mantidos completamente isolados, sem comunicação com os guardas, apenas com comandos não-verbais.
- A alimentação e a hidratação estavam nas mãos dos interrogadores, que decidiam quando e como os prisioneiros poderiam se alimentar.
- As celas eram pequenas, escuras, e careciam de qualquer conforto, enquanto as salas de interrogatório eram projetadas para maximizar o estresse do prisioneiro.
- O uso de um sistema de microfonação era comum, permitindo a escuta contínua das interações.
A brutalidade dessa abordagem é evidente nas anotações que documentam interrogatórios longos e extenuantes, enquanto os prisioneiros estavam privados de informações sobre seus direitos ou mesmo sobre o tempo.
Reflexões Finais
A exposição desses arquivos não apenas lança luz sobre a relação entre o aparato repressivo da ditadura militar e os serviços de inteligência internacionais, mas também serve como um lembrete poderoso dos horrores cometidos durante esse período. Como um dos autores da obra "A Ditadura Encurralada", Cyro Etchegoyen representou uma era em que a repressão se tornou uma prática sistemática, espelhando as preocupações éticas e morais da política global da época.