Grupo ligado à Al Qaeda ataca governo do Mali e mata general
Uma ofensiva sem precedentes no país africano revela a fragilidade do governo militar e a coordenação entre jihadistas e rebeldes.

Bamako (Mali) | AFP
Em um dia marcado por violência e desestabilização no Mali, um grupo jihadista vinculado à Al Qaeda confirmou ataques em múltiplas localidades do país africano, resultando na morte do general Sadio Camara, ministro da Defesa da junta militar governante. O ataque ocorreu próximo à capital, Bamako, e destaca a crescente aliança entre jihadistas e rebeldes tuaregues da Frente de Libertação de Azawad (FLA).
O Mali sofreu uma crise política significativa após a tomada do poder por uma junta militar em 2020 e 2021, e há mais de uma década é afetado por conflitos violentos perpetrados por diversos grupos jihadistas. No último sábado, a organização jihadista Grupo de Apoio ao Islã e aos Muçulmanos (JNIM) reivindicou responsabilidade pelos ataques em um comunicado, afirmando que os eventos tiveram caráter coordenado e abrangente.
Segundo declarações posteriores do Exército do Mali, a situação permanece instável, mas controlada, ressaltando que diversas unidades terroristas foram neutralizadas. De acordo com informes do Ministério das Relações Exteriores da Rússia, cerca de 250 combatentes participaram do ataque, que teve como alvos principais o aeroporto de Bamako e uma base militar adjacente. As autoridades russas expressaram preocupação com os resultados da ofensiva, alertando para a gravidade da oportunidade que criaram os jihadistas.
A influência da Frente de Libertação de Azawad
A FLA, cuja relação com os jihadistas se intensificou nos últimos meses, anunciou ter recuperado o controle da cidade de Kidal, um reduto estratégico no norte do Mali que havia sido dominado pelo Exército do Mali e forças russas até o momento. As tensões aumentaram ainda mais com o anúncio de que as tropas russas estavam programadas para se retirar da cidade, o que expõe tanto a fragilidade do governo militar quanto o crescente poder dos grupos rebeldes e jihadistas.
Comunidades locais em Kati e nos arredores do aeroporto reportaram danos significativos a residências, evidenciando a intensidade dos conflitos. Dada a natureza caótica das últimas horas, inclusive disparos ouvidos em Gao e Sevaré, a embaixada dos Estados Unidos e a ONU aconselharam seus funcionários a evitarem deslocamentos desnecessários e a permanecerem em segurança.
Implicações de segurança
Os eventos ocorridos no último fim de semana foram descritos como uma ofensiva coordenada em escala sem precedentes, segundo o analista da Aldebaran Threat Consultants (ATC), Charlie Werb. Ele observa a deterioração da segurança em Bamako, uma capital que já enfrente desafios significativos devido à fronteira com regiões de instabilidade intermitente. Isso representa um retrocesso em meses de planejamento tático por parte das tropas do governo, que agora se vêem lutando contra uma arremetida de forças versáteis e bem organizadas.
Desde 2012, o Mali enfrenta um estado de insegurança crescente, exacerbado pela violência de grupos jihadistas que atuam em colaboração com facções criminosas e rebeldes ao longo de seu território. Ao perdurar a situação atual, a possibilidade de um agravamento da crise humanitária torna-se iminente, com riscos adicionais à paz e estabilidade da região norte da África.