Infraestrutura: Desigualdade na Arte e na Vida
Reflexões sobre a desigualdade brasileira à luz da obra de Portinari e do desafio da infraestrutura

O Legado de Portinari e a Realidade Brasileira
As figuras dos "Retirantes", do icônico artista Cândido Portinari, retratam uma realidade gritante: homens e mulheres caminhando sob um céu árido, com corpos desgastados e crianças em braços que não conhecem o conforto. Nessa representação não há heroísmo, mas uma indiscutível resistência à desigualdade. A obra, assim como o famoso romance "Vidas Secas" de Graciliano Ramos, não é apenas um retrato artístico, mas um manifesto visceral contra a desigualdade, especialmente a do Brasil.
Na época em que Portinari produziu suas obras, o Brasil era um país em que mais da metade da população era analfabeta, e onde a expectativa de vida mal passava dos 45 anos. A precariedade dos serviços básicos, como saúde, educação e infraestrutura, era a norma, e a desigualdade não era uma mera abstração estatística, mas um destino cruel imposto a milhões.

De Ontem para Hoje: Uma Evolução Retórica
O Brasil mudou consideravelmente desde os tempos de Portinari. A taxa de alfabetização atingiu um impressionante 93%, e a expectativa de vida saltou para 76,6 anos. Contudo, a desigualdade permanece profundamente enraizada. De acordo com a Pnad/IBGE 2023, o índice de Gini estava em 0,518, e um relatório da World Inequality Report 2026 revela que 10% da população ainda concentra aproximadamente 60% da renda nacional.
Essas distâncias também se manifestam globalmente, onde os 10% mais ricos detêm 53% da renda mundial, enquanto a metade mais pobre possui apenas 8%. Portanto, a desigualdade revela-se não apenas como uma estatística, mas como um conjunto de oportunidades e realidades geográficas assimétricas.

A Geografia da Oportunidade
Estudos recentes, como os realizados pelo economista Raj Chetty de Harvard, indicam que as oportunidades enfrentadas na vida são profundamente influenciadas pela localização geográfica. No Brasil, essa questão se torna ainda mais crítica: cerca de 32 milhões de pessoas ainda não têm acesso a água potável e quase 90 milhões não possuem coleta de esgoto segura. Isso cria um ciclo de desigualdade que vai muito além da renda: a falta de infraestrutura resulta em desigualdades em saúde, educação, produtividade e expectativa de vida.
O Banco Mundial, ao analisar mais de cem países, destaca que a expansão e a qualidade da infraestrutura são fundamentais para acelerar o crescimento econômico e reduzir a desigualdade de renda.

Infraestrutura: Política de Igualdade
Assim, a discussão sobre infraestrutura transcende a mera construção de obras; ela se configura como uma política de igualdade. As parcerias público-privadas (PPP) e os contratos de concessão devem incluir metas de universalização e obrigações que garantam a inclusão das populações mais vulneráveis. Quando bem projetados, esses contratos mobilizam capital e são capazes de levar dignidade onde o mercado não alcança.
Os retirantes de Portinari não estão apenas caminhando pelo sertão, mas pela história do Brasil. A cada novo projeto de infraestrutura que se concretiza — seja uma rede de água, um sistema de esgoto, uma linha de transporte ou uma conexão digital — dá-se um passo na direção de interromper essa marcha pela desigualdade. O desafio que se impõe ao nosso tempo é fazer com que esses indivíduos parem, não por exaustão, mas porque, finalmente, chegaram ao rumo que lhes é devido.