A Era dos Sem-Vergonha: Reflexões sobre a Pós-Vergonha
Como a ausência de vergonha transforma a dinâmica social e política na era digital

A Era dos Sem-Vergonha
Passados dez anos desde que o termo "pós-verdade" foi consagrado como a palavra do ano, um novo conceito começa a se destacar nas esferas política e social: a pós-vergonha. Esta nova fase é caracterizada pela aparente ausência de vergonha entre figuras públicas, que se tornam cada vez mais polêmicas e ofensivas em suas declarações.
A vergonha, como explica a sociologia, sempre foi um sentimento crucial para os humanos. Ele serve como um mecanismo de regulação social e nos impede, na maioria das vezes, de fazer ou dizer algo que possa chocar ou ofender os outros. Entretanto, ao que parece, essa barreira está se desintegrando.

Hoje em dia, os sem-vergonha estão por toda parte, fazendo declarações racistas, xenofóbicas, machistas e homogêneas nas redes sociais e no cenário público. Recentemente, assistimos a uma onda de declarações chocantes que ecoaram mundialmente. Um exemplo marcante foi o incidente da senadora paraguaia Celeste Amarilla, que disparou ataques racistas contra Kylian Mbappé, capitão da seleção francesa, referindo-se a ele de maneira profundamente depreciativa.
No Brasil, o discurso também se radicalizou. O jornalista Paulo Figueiredo afirmou que "as mulheres votam mal", enquanto a influenciadora bolsonarista Pietra Bertolazzi ousou dizer, sem qualquer pudor, que as mulheres deveriam ser privadas do direito ao voto. Essas falas não são apenas ofensivas, mas também sinalizam uma regressão na discussão sobre direitos e igualdade.
Nos Estados Unidos, a situação é igualmente alarmante. Donald Trump continua a fazer declarações que ofendem minorias e atacam rivais. Um exemplo recente foi a marcha de 300 supremacistas brancos e neonazistas pelas ruas de Washington no Dia da Independência, demonstrando que as ideias extremistas ganharam um espaço quase legítimo no debate público.

Vivemos tempos que vão além das mentiras e dos chamados "fatos alternativos"; hoje, a vergonha que antes guardava certas opiniões prejudiciais é quase inexistente. O cientista político Vicente Valentim observa que os ideais racistas e machistas nunca desapareceram, mas permaneceram ocultos até que figuras com um discurso populista os trouxessem à luz.
A internet, com seu efeito de bolha social, contribui significativamente para essa crise: as pessoas se cercam de outras que compartilham crenças similares, muitas vezes sob o manto do anonimato, o que diminui ainda mais a vergonha e o autocontrole.
A grande questão que se impõe agora é: e se a sem-vergonhice se tornar o novo normal? Estamos prontos para viver em um mundo dominado por aqueles que não sentem mais vergonha de expor suas opiniões extremistas? O desafio é coletivo, e as consequências desse fenômeno podem ser devastadoras para o tecido social que nos une.
Por fim, cabe refletir: o que nos resta se perdemos a capacidade de nos envergonhar?