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Necromancia Digital: A Nova Fronteira da Inteligência Artificial e Suas Controvérsias

Como a IA está recriando pessoas falecidas e o debate sobre ética e luto ganha força.

Necromancia Digital: A Nova Fronteira da Inteligência Artificial e Suas Controvérsias

Introdução

A recente morte do ator britânico e neozelandês Sam Neill, aos 78 anos, trouxe à tona um tema controverso: a recriação digital de pessoas falecidas por meio da inteligência artificial. Conhecido por seu papel como o paleontólogo Alan Grant na franquia 'Jurassic Park', Neill foi rapidamente transformado em um 'fantasma' digital, em imagens que o mostravam atravessando os portões do parque não apenas como uma homenagem, mas como um exemplo da tão debatida 'necromancia digital'.

O que é a Necromancia Digital?

A necromancia, tradicionalmente, é a prática de comunicação com mortos. Quando falamos de 'necromancia digital', referimo-nos ao uso de técnicas de IA para criar avatares ou conteúdos que manipulam a voz, a imagem e os comportamentos de indivíduos que já partiram. Essa prática, que tem dividido opiniões, levanta questões éticas profundas sobre a manipulação da memória dos mortos e o impacto no luto dos vivos.

Casos Recentes e a Reação do Público

Após a morte de Sam Neill, o uso de ferramentas de IA para criar tributos se intensificou, assim como o debate sobre a exploração de imagens de pessoas falecidas. Outros casos emblemáticos incluem Gabriel Ganley, um fisiculturista de 22 anos, que após sua morte foi retratado em vídeos AI mostrando sua 'chegada ao céu' em uma academia. O uso inadequado dessas homenagens pode transformar o luto em um produto, criando, segundo especialistas, 'fantoches digitais' que não têm defesa contra essa representação.

A Influência da IA na Memória e no Luto

Como bem enfatiza Elaine Kasket, professora de psicologia na Universidade de Bath, a capacidade de criar avatares sem a necessidade de conhecimento técnico significa que qualquer um pode manipular 'restos digitais' de indivíduos falecidos. Isso não apenas distorce a memória das pessoas, mas pode infringir direitos dos familiares.

Os incidentes com a imagem de Pelé, por exemplo, trouxeram a tona a reação negativa de sua filha, Flávia Christina, que se sentiu desconfortável ao ver vídeos com a imagem de seu pai distorcida. Esse poder de recriação, que antes era restrito a áreas como Hollywood, agora está nas mãos de qualquer um.

A Regulação e o Futuro da Necromancia Digital

A regulamentação sobre o uso de imagens e dados de pessoas falecidas ainda é um tópico de lento avanço. Em um esforço para controlar essa prática, o senador Rodrigo Cunha propôs um projeto buscando diretrizes sobre o uso de IA para recriações, mas o projeto foi arquivado. A falta de uma estrutura legal clara permite que a indústria de tecnologia continue a explorar a manipulação digital de maneira incontrolável.

A Indústria do Luto e suas Implicações

O fenômeno conhecido como 'grief tech' ou 'tecnologia do luto' tem surgido como uma solução para a dor da perda, oferecendo interações com clones digitais de entes queridos. No entanto, essa prática levanta questões sobre a exploração emocional de familiares em luto e a superficialidade das interações humanas.

A experiência de Jim Acosta, ex-âncora da CNN, que entrevistou um avatar de Joaquin Oliver, um garoto assassinado, ilustra o lado sombrio dessa tecnologia. Em contraste, a criação de avatares digitais de pessoas falecidas sem o consentimento da família pode tornar-se uma prática exploratória e invasiva.

Conclusão

Enquanto a IA continua a avançar, a linha entre a homenagem e a exploração se torna tênue. A necromancia digital não é apenas uma questão tecnológica, mas um debate que envolve ética, privacidade e respeito à memória daqueles que partiram. O futuro deste fenômeno dependerá, em grande parte, de como a sociedade decide regular e lidar com essa nova realidade.

Escrito por Equipe Portal CTMC