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Pizza, pirulito e emojis: como símbolos comuns podem ser usados por aliciadores de crianças na internet

Estratégias de aliciamento em tempos digitais: a comunicação camuflada entre crianças e criminosos.

Pizza, pirulito e emojis: como símbolos comuns podem ser usados por aliciadores de crianças na internet

O lado sombrio dos emojis e símbolos comuns

Ao contrário do que se costuma imaginar, não existe um perfil único que sirva para identificar pessoas envolvidas no aliciamento de crianças — Foto: pa/Karl-Josef Hildenbrand/dpa/picture alliance

Emojis, expressões e outros símbolos aparentemente inofensivos podem fazer parte de estratégias de aliciadores para se aproximar de crianças e adolescentes em ambientes digitais. Em determinados contextos, esses elementos deixam de ter o significado original e passam a funcionar como formas de comunicação dentro de grupos fechados, o que dificulta a sua identificação por usuários e pelas plataformas digitais.

Segundo pesquisadores ouvidos pela DW, mais importante do que conhecer cada símbolo é entender como funciona o processo de aliciamento, que muda constantemente e se adapta à medida que determinadas práticas se tornam conhecidas.

Patrícia Espíndola de Lima Teixeira, psicopedagoga e coordenadora do Observatório Juventudes da PUC-RS, afirma: "A divulgação indiscriminada desses códigos pode ampliar seu alcance e facilitar que pessoas mal-intencionadas os adotem. Portanto, é prudente evitar sua publicação".

Esse processo, denominado grooming, é uma estratégia gradual que busca construir confiança, manipular emocionalmente e reduzir as defesas do adolescente. Normalmente, nas etapas iniciais, não há conteúdo sexual explícito envolvido.

Grooming e aleitamento na era digital

Teixeira acrescenta que, na prática, dentro de comunidades digitais, há uma recodificação, onde aquilo que era inocente torna-se outra mensagem.

Os códigos secretos do aliciamento

O que diferencia um código usado por pessoas envolvidas na exploração sexual de crianças de um símbolo comum é o contexto em que ele aparece. Isoladamente, um emoji ou uma imagem não indicam prática criminosa. O significado surge quando esses elementos são combinados e inseridos num conjunto de comportamentos que revelam uma tentativa de aliciamento ou compartilhamento de material de abuso sexual infantil.

Sheylli Caleffi, educadora, ressalta que um emoji, por si só, não significa nada. Símbolos de uso cotidiano são apropriados pelos aliciadores exatamente por despertarem menos suspeitas. Entre os exemplos mais conhecidos estão referências à pizza, à bola de futebol americano e ao pirulito.

Outro exemplo intrigante é a palavra leque, que é um termo abreviado e pode ser associado à pedofilia. Segundo Caleffi, "a bola de futebol americano, por exemplo, é associada a um jogador que foi preso por crimes sexuais".

Importante ressaltar que o uso de tais símbolos, por si só, não configura um crime. A alerta de Caleffi é clara: "O importante é perceber rapidamente quaisquer sinais mais explícitos e denunciar o comportamento".

Ética no compartilhamento de informações

O advogado Bernardo Fico, especialista em Direito Digital, menciona que não existe um código universal ou permanente. A Internet Watch Foundation (IWF) mantém uma lista atualizada de termos que podem estar associados a abusos. Palavras e expressões podem adquirir significados ilícitos quando conectadas em contextos específicos.

Um exemplo notório envolve a expressão cheese pizza, cujas iniciais, CP, se tornaram uma maneira de ocultar referências à pornografia infantil. Assim como o termo corn (milho), que é utilizado como uma forma disfarçada de mencionar pornografia, mas também pode aparecer em contextos legais.

Comunicação disfarçada entre jovens e aliciadores

O uso de símbolos e emojis levanta questões sobre a eficácia dos mecanismos de busca e recomendação nas plataformas digitais. Fico destaca que a identificação de padrões correlacionados, como interações repetidas entre adultos e perfis juvenis, é essencial na detecção de aliciamento.

Desmontando o estereótipo do "estranho"

Ao contrário da crença popular, não existe um perfil típico para aliciadores de crianças online. O comportamento dos aliciadores frequentemente inclui manipulação, paciência e adaptação às vulnerabilidades da vítima. Teixeira enfatiza a importância de desconstruir o estereótipo do "estranho misterioso".

O aliciador, na maioria das vezes, é alguém próximo à vítima, seja através da família, escola ou atividades extracurriculares. O processo de aliciamento é progressivo: o criminoso testa limites e observa reações, recuando e adaptando a abordagem conforme necessário.

Diferentes plataformas são utilizadas em fases distintas desse processo. Redes sociais e mensagens privadas podem iniciar o contato, enquanto jogos online oferecem chats, reduzindo a percepção de risco. Aplicativos de mensagens criptografadas são utilizados em etapas mais avançadas, dificultando a detecção por terceiros.

Apesar das melhorias nas plataformas em termos de segurança, ainda existem limitações nas verificações de idade e sistemas de recomendação, o que pode facilitar encontros indesejados.

Finalizando, embora os códigos representem uma pequena parte do problema, a educação e a conscientização se tornaram chaves essenciais para a proteção de crianças e adolescentes no ambiente digital.

Escrito por Equipe Portal CTMC