Fraude de ICMS: Estruturas Sofisticadas e a Infiltração de Figurantes em São Paulo e Além
Operação Distrato desmonta esquema de bilhões com a ajuda de auditores falsos e farta ostentação.

Uma Rede de Fraude Bilionária
Um vasto esquema de fraude tributária envolvendo a venda de créditos inexistentes de ICMS foi desmantelado em São Paulo, conforme revelou o Ministério Público de São Paulo (MP-SP), em associação com o Comitê Interinstitucional de Recuperação de Ativos (Cira) e a Secretaria da Fazenda de São Paulo (Sefaz-SP). Intitulada Operação Distrato, a investigação começou em setembro de 2025 e já apontou uma sonegação estimada em R$ 3,8 bilhões, com autuações já lavradas contra cerca de 752 empresas.
Os Figurantes e a Simulação de Legalidade
De acordo com os investigadores, o esquema utilizava até figurantes apresentados como auditores fiscais para enganar empresas e dar uma aparência de legalidade às operações suspeitas. Em reuniões virtuais, a presença desses figurantes reforçava a credibilidade da transação, fazendo as empresas acreditarem que estavam agindo dentro da lei.
Essa tática envolvia o uso de documentação falsificada, como despachos e apólices de seguros falsos, projetando um cenário de segurança e regulação onde não havia nada além de uma profunda fraude. Os operadores forneciam contratos e pareceres jurídicos que respaldavam a utilização de créditos que, na realidade, não existiam.

O Operacional: Escritórios de Advocacia e Consultorias
A estrutura era composta por uma rede de escritórios de advocacia, consultorias e intermediários que captavam empresas dispostas a reduzir a carga tributária. O mais notável entre eles é o escritório de Nelson Wilians, que se manifestou afirmando sua disposição em colaborar com as autoridades durante a investigação. Segundo o procurador-geral de Justiça, Paulo Sérgio de Oliveira e Costa, a engenharia do esquema era complexa, mas o que o tornava eficaz era a confiança que transmitia.
Estratégias de Ostentação e a Psicologia do Engano
Os envolvidos usavam uma estratégia de ostentação para dar a impressão de legitimidade. Relatos indicam que o uso de helicópteros e carros de luxo foi comum, criando uma imagem de sucesso e estabilidade. Para a maioria dos empresários, essa realidade pode ter sido sedutora o suficiente para ignorar os sinais de alerta sobre a ilicitude das operações.
Ampliação da Investigação: Fronteiras em Jogo
Os efeitos da Operação Distrato podem ultrapassar as fronteiras de São Paulo. Documentos apreendidos estão sendo compartilhados com as secretarias da Fazenda em outros estados, buscando identificar atividades similares que possam ter acontecido em escala nacional. O potencial de crescimento da investigação é significativo, com um aumento contínuo no número de empresas sendo indiciadas.
A Nova Era de Fiscalização com Inteligência Artificial
Um fato relevante que catalisou esta investigação foi a utilização de inteligência artificial para monitorar o comportamento tributário de empresas. Alterações abruptas nos padrões de declarações fiscais levaram à emissão de mais de 9.000 ordens de serviço fiscal, resultando em um considerável número de apurações e autuações. Este movimento representa uma nova era na fiscalização tributária, onde tecnologia avança lado a lado com investigações tradicionais.
Responsabilização e Futuro Inevitável
A questão da responsabilização criminal recairá sobre cada empresa envolvida, dependendo das evidências acumuladas. Empresários, agora, enfrentam um dilema: foram vítimas ou cúmplices em um esquema de corrupção extensivo? Para muitos, a resposta se torna cada vez mais ambígua, refletindo sobre sua própria diligência em verificar a legalidade das operações nas quais estavam envolvidos.
As consequências dessa operação podem reiniciar a discussão sobre a ética empresarial e as barreiras que diferentes setores devem estabelecer para prevenir tais ocorrências no futuro, promovendo uma prática fiscal mais transparente e correta.