Humanos têm capacidade biológica de fazer e apreciar música, sugere estudo
Pesquisa revela que a musicalidade é inata, mas depende de contextos culturais para seu pleno desenvolvimento.

Introdução à Musicalidade Humana
Um novo estudo publicado na Current Biology em março de 2026 traz à tona a intrigante relação entre a biologia humana e a música. Segundo o autor do artigo, Henkjan Honing, professor de Cognição Musical da Universidade de Amsterdã, as habilidades musicais são uma predisposição natural e inata dos seres humanos, não se limitando a ensinamentos e treinamentos culturais.
Fundamentação do Estudo
O estudo revisou duas décadas de pesquisas em várias disciplinas, incluindo psicologia, neurociência, biologia, genética e cognição animal. Uma das conclusões mais marcantes é que a música é uma constante em todas as culturas do mundo, apresentando padrões significativos que incluem intervalos de altura, ritmos e contornos melódicos característicos comparáveis entre diferentes sociedades.
Percepção Musical em Recém-Nascidos
Pesquisas indicam que até mesmo recém-nascidos possuem percepção de ritmo, apoiando a ideia de que as habilidades musicais são inatas. Um estudo de 2009 publicado na PNAS demonstrou essa capacidade em bebês, reforçando a hipótese de que a musicalidade é uma habilidade biológica fundamental.
A Musicalidade e sua Interação com Cultura
A professora de educação musical da University of Southern California, Beatriz Ilari, concorda que a musicalidade tem um componente biológico, mas ressalta que seu desenvolvimento é fortemente influenciado pelo ambiente cultural e familiar. Em sua visão, a musicalidade é como um potencial que necessita de condições propícias para florescer.
Pesquisas no Brasil e a Necessidade de Estudo
A professora Patrícia Vanzella, coordenadora do projeto Neurociência e Música na Universidade Federal do ABC (UFABC), reforça a ideia de que a musicalidade resulta de uma interação complexa entre predisposições biológicas e influências culturais. Ela observa que, no Brasil, a riqueza cultural musical carece de pesquisas aprofundadas.
A Função Adaptativa da Música
Desde as teorias de Charles Darwin, que sugeriu que a música poderia ter evoluído como um meio de atrair parceiros, até a ideia de que ela promove coesão social, as funções adaptativas da música são assuntos de intenso estudo. Vanzella enfatiza que essas teorias são complementares, mas não suficientes sozinhas para explicar a resiliência e continuidade da música ao longo da história humana.
Hipóteses sobre a Evolução da Musicalidade
O artigo alerta para a hipótese de multicomponentes na musicalidade, onde diferentes habilidades musicais podem ter origens distintas. Enquanto algumas são comuns a várias espécies, outras podem ser exclusivas, sugerindo uma evolução complexa e interligada.
Capacidades Musicais em Animais
Diversos estudos têm mostrado que outras espécies também apresentam habilidades que fazem parte do mosaico da musicalidade. Um exemplo é um estudo de 2025 publicado na Science, que mostrou que macacos podem sincronizar seus movimentos a músicas, uma habilidade que pode ter surgido gradualmente ao longo do tempo. Outro caso famoso é o da cacatua Snowball, que demonstrou a capacidade de dançar em sincronia com músicas, evidenciando a percepção de ritmo e batida nos animais.
A Música e a Linguagem
Embora alguns cientistas tratem a música como um subproduto da linguagem, Honing argumenta que novas evidências sugerem que a música pode ter precedido a linguagem humana. Estudos de neuroimagem indicam que essas duas capacidades dependem de áreas distintas do cérebro, e a existência de indivíduos com dificuldades de linguagem, mas que mantêm habilidades musicais robustas, reforça essa teoria.
Considerações Finais
À medida que a pesquisa sobre musicalidade avança, tende-se a uma maior integração dos aspectos biológicos e culturais, refletindo a complexidade e a importância da música na experiência humana. Esse é um campo de estudo que promete revelar ainda mais sobre nossa relação com a música e como essa arte forma parte intrínseca de nossa evolução e identidade como espécies.