Os Sinais de uma Crise de Dívida que a Eleição Prefere Ignorar
A Realidade Econômica do Brasil e Seus Desafios Fiscais à Frente das Eleições de 2026

Introdução
A disputa eleitoral de 2026 tem deixado em segundo plano um tema central: a estabilidade econômica do país. O Brasil caminha para uma crise fiscal, alimentada pela trajetória explosiva do endividamento público. Há incerteza quanto à capacidade do governo de gerar superávits primários suficientes para estabilizar ou inverter a trajetória da dívida. 
Impactos da Crise Fiscal
O aumento do endividamento geralmente eleva o prêmio de risco soberano, depreciando o câmbio, desancorando as expectativas de inflação e pressionando os juros. O resultado pode ser um cenário de estagflação, onde a desaceleração da atividade econômica coexiste com a aceleração da inflação. O cenário atual não demonstra senso de urgência, e quando o tema é abordado, geralmente vem acompanhado de promessas de gerenciamento superficiais.
O Problema das Despesas Obrigatórias
Menos de 10% da despesa primária federal é de alocação discricionária. Embora existam ineficiências administrativas, a raiz do problema reside na rigidez das despesas obrigatórias, que crescem devido a regras de indexação e vinculação constitucional. Esta rigidez tem limitado as opções disponíveis para o governo, aumentando a vulnerabilidade do sistema fiscal. 
Sinais de Alerta nos Títulos Públicos
Os títulos públicos já estão emitindo sinais de alarme. Os papéis indexados à inflação estão com juros reais próximos de 8% ao ano em quase toda a curva, e o Tesouro Nacional cancelou leilões para evitar validar a elevação do prêmio de risco. Nos últimos anos, a dívida indexada à Selic teve um aumento significativo, respondendo por quase metade do estoque da dívida pública.
Experiências Passadas e suas Lições
Entre 2014 e 2017, o Brasil enfrentou uma crise severa de desajuste fiscal, com juros elevados e uma inflação galopante. Durante esse período, o endividamento bruto aumentou de 54% para 72% do PIB, e o PIB per capita caiu 7,5%. Apesar dos anos passados, hoje estamos em um cenário com uma dívida bruta estimada em mais de 83% do PIB.
O Desafio do Ajuste Fiscal
Um ajuste fiscal eficaz deve reduzir a incerteza sobre a trajetória da dívida, permitindo a queda dos juros reais e ancorando a inflação esperada. Não são cortes simbólicos que trarão essa mudança, mas sim reformas estruturais que abordem a rigidez das despesas. A trajetória de gastos crescentes apenas sugere que a eficiência no uso desses recursos é criticamente questionável, evidenciada pelos baixíssimos avanços em redução da pobreza, mesmo com aumento substancial nos gastos sociais.
Conclusão
Para estabilizar a dívida em 80% do PIB com juros reais em 6,5%, um esforço fiscal realista exige um ajuste de quatro pontos percentuais do PIB. O contexto econômico externo, até agora favorável, não permanecerá eternamente. Por isso, traçar um plano sólido de estratégias fiscais deve estar no centro do debate eleitoral em vez de se tornar uma preocupação secundária.